Bachata e merengue: o pulso secreto da República Dominicana
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Sob o céu cobalto da República Dominicana, onde a luz desliza como líquido pelas fachadas ocres das cidades coloniais e as ondas quebram em compasso contra praias brancas como osso, o ritmo não é ornamento: é sangue vital, é respiração.

Aqui, a música não é algo que se escuta. É algo que se habita.
Ela se aninha nos passos das mulheres que dançam descalças sobre os ladrilhos gastos dos pátios, nos abraços dos idosos sentados à sombra de antigos pés de manga, nos sorrisos trocados ao pôr do sol quando o ar cheira a sal e cana-de-açúcar.
Deste solo nascem duas vozes irmãs, opostas e, ainda assim, ligadas: o merengue e a bachata. Duas maneiras de dizer “eu te amo” a uma terra que transformou o batimento cardíaco em língua materna.
Merengue:
Batida de tambor da alma dominicana, o merengue é o grito ancestral de um povo que aprendeu a cantar mesmo diante das dificuldades. Nascido nas colinas férteis do Cibao, é o filho indomável da África e da Europa, impregnado de história e contradição.
No início, era desprezado: comum demais, sensual demais, grosseiro demais...
Mas, como tudo o que é verdadeiro, resistiu. Sua ascensão à glória começou sob a ditadura de Rafael Trujillo, que o transformou em símbolo nacional. A partir daquele momento, o merengue tornou-se o hino dos desfiles, o ritmo dos casamentos, o eco exuberante de cada festival e celebração.
Dançá-lo é um ato de fé. Os quadris desenham círculos, os pés deslizam em padrões velozes, e os casais se abraçam e se soltam como em uma oração pagã. A güira zumbe como uma cigarra incansável, a tambora pulsa sob a pele, o acordeão conta histórias que nenhuma língua falada conseguiria capturar. Johnny Ventura, Rubby Pérez e Wilfrido Vargas transformaram o merengue em arte popular e sofisticação orquestral, levando-o até Paris e Nova York sem jamais trair sua centelha original.
E assim, em 2016, a UNESCO reconheceu oficialmente aquilo que todo dominicano já sabia: o merengue não é apenas música. É patrimônio da humanidade.
Bachata:
Melancolia e mel nos lábios; e então surge a bachata. Mais jovem, mais íntima, mais ferida. Nascida nos bordéis e bares das margens urbanas, entre homens solitários e copos pela metade, a bachata carregou durante décadas o estigma da vergonha. No entanto, como tantas vezes acontece, aquilo que um dia foi rejeitado revela-se essencial.
A bachata é a alma ferida que canta o amor perdido, a saudade, os desejos que nunca descansam. É o violão que chora com elegância, a linha de baixo que acompanha como uma sombra fiel, a voz que sussurra aquilo que o coração teme dizer em voz alta.
Nas décadas de 1980 e 1990, quando o mundo parecia girar cada vez mais depressa, Juan Luis Guerra tomou a bachata pela mão e a vestiu novamente, com poesia, elegância e graça. Levou-a aos teatros, aos festivais e às rádios internacionais. E as pessoas, talvez por nunca terem esquecido aquela voz agridoce, começaram a escutá-la outra vez.
Hoje, a bachata é dançada em todos os continentes. Mas somente nesta ilha ela ainda carrega aquela tonalidade inconfundível, metade mel, metade coração partido. Uma identidade que faz dançar quem chega à República Dominicana e logo percebe que esses dois ritmos estão em toda parte. Não apenas em clubes ou concertos, mas nas escolas, nos mercados, nos pátios e nas vozes das crianças que os cantam enquanto brincam.
O merengue e a bachata não são dois capítulos separados de um livro; são correntes gêmeas do mesmo rio: uma selvagem e veloz, a outra sonhadora e profunda. E o povo dominicano encarna ambas, com orgulho e naturalidade. Há algo de milagroso nessa maneira de viver a música, não como entretenimento, mas como ritual cotidiano, tão necessário quanto o pão e o vento.
Quem tem a sorte de presenciar uma celebração em uma aldeia de Santiago ou uma dança improvisada em um terraço de Santo Domingo compreende: aqui, a dança é linguagem muito antes de ser arte. É uma forma de recordar quem somos, de onde viemos e o que desejamos. Seu eco atravessa hoje o mundo: nos cantos mais distantes do planeta, alguém marca o ritmo com o pé sobre uma pista polida, aprende um giro de merengue ou um balanço de bachata e, sem perceber, une-se a uma história coletiva nas escolas de dança de Berlim, Tóquio, Joanesburgo ou Buenos Aires.
Mas é somente ao retornar à ilha, ao aroma de coco e tabaco, que se compreende de verdade. Aqui, a música é oração. É ritual. É memória.
E cada nota, cada passo, é uma maneira de dizer: estamos vivos, estamos juntos e dançamos.
Uma palavra final:
Entre as luzes de Santo Domingo e os silêncios verdes de Jarabacoa, entre o trovão dos tambores e o sussurro dos violões, a República Dominicana oferece muito mais do que praias paradisíacas. Oferece um pulso. Uma identidade que dança. Um hino à vida que nunca deixa de bater.
Enquanto alguém dançar um merengue ou cantar uma bachata sob a lua cheia, esta ilha continuará contando sua história, com graça, com orgulho e com um ritmo que não conhece fronteiras.
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Autor: Saluen Art
References:
Austerlitz, P. (1997). Merengue: Dominican music and Dominican identity. Philadelphia: Temple University Press.
Pacini Hernandez, D. (1995). Bachata: A social history of Dominican popular music. Philadelphia: Temple University Press.
Britannica. (2023). Merengue. In Encyclopædia Britannica. Retrieved from https://www.britannica.com/art/merengue
UNESCO. (2016). Music and dance of the merengue in the Dominican Republic. Retrieved from https://ich.unesco.org/en/RL/music-and-dance-of-the-merengue-in-the-dominicanrepublic-01162
Oxford University Press. (2021). Merengue and Bachata. In Oxford Bibliographies: Latino Studies. Retrieved from https://www.oxfordbibliographies.com
Diario Libre. (2020). Juan Luis Guerra: la voz que trasformó la bachata.
Ministerio de Cultura de la República Dominicana. (n.d.). Dossier Cultural del Merengue y la Bachata



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